O fim da Viúva, Comédia Cearense encerra espetáculo.
- Paulo César Cândido

- há 1 dia
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Depois de uma temporada marcada pelo humor, pela irreverência, por grandes interpretações e pela resposta calorosa do público, a Comédia Cearense chega ao último dia de “Viúva, porém honesta”, de Nelson Rodrigues. Neste domingo, 30 de agosto, às 19h, no Teatro Nadir Papi Saboya, a companhia apresenta a última sessão desta montagem que levou ao palco uma das farsas mais provocadoras do teatro brasileiro.

Há espetáculos que terminam quando as cortinas se fecham. E há espetáculos que deixam alguma coisa no público. “Viúva, Porém Honesta” pertence à segunda categoria.
Desde a estreia, a montagem dirigida por Hiroldo Serra vem conquistando o público com uma combinação de humor, absurdo, crítica social, ritmo e interpretações que dão nova vida ao texto de Nelson Rodrigues, escrito em 1957.
A peça reúne personagens extravagantes e situações completamente absurdas para falar de algo muito sério: a hipocrisia humana, os costumes, as aparências, o poder, a família e a necessidade que temos de julgar o comportamento dos outros.
A Comédia Cearense encontrou no texto de Nelson um território fértil para fazer aquilo que sabe fazer há quase sete décadas: teatro para o público, com o público e em diálogo direto com ele.
Um elenco que faz à farsa acontecer
Nelson Rodrigues definiu "Viúva porém honesta" como "uma farsa irresposável em 3 atos" e no centro dessa engrenagem está Manoela Bacelar, vivendo Ivonete, a jovem viúva que leva sua fidelidade ao marido morto às últimas consequências. Sua construção da personagem sustenta a situação absurda da peça e transforma a “honestidade” da viúva em um dos grandes motores da comédia. Não posso me focar apenas em Manoela, abaixo vocês saberão o porquê:
Luís Costa, como Dr. JB, representa o poder, a autoridade e o desespero de um pai que não aceita a decisão da filha. É um personagem que precisa transitar entre a autoridade e o ridículo, e Luís constrói essa figura com força e presença cênica.
Márcia Sucupira, como Madame Cri-Cri, entra no universo da peça trazendo uma das características mais interessantes de Nelson: a inversão das aparências. Aquela que a sociedade poderia considerar “imoral” muitas vezes demonstra mais sinceridade do que aqueles que se apresentam como respeitáveis.
Amenhotep Rodrigues, como Diabo da Fonseca, interpreta uma das figuras mais deliciosamente absurdas da peça. O Diabo observa, provoca e interfere, tornando-se quase um comentarista daquele mundo onde todos parecem acreditar que possuem alguma espécie de normalidade.
Ildo Mota, como Dr. Lupicínio, dá vida à sátira de Nelson aos especialistas que acreditam possuir respostas para tudo. Sua presença contribui para o jogo farsesco e para o humor intelectual da obra.
Érica Cardoso, como Dra. Sanatória Botelho, integra esse universo de especialistas que tentam encontrar uma explicação para o comportamento de Ivonete e nos seus "peitões" (um arranjo ao texto original, geniosamente elaborado por Hiroldo) sua interpretação, reforça o tom caricatural que a peça exige.
Natali Lima, como tia Assembleia, começa toda pudorada, cheia de moral e bons costumes, mas no final descobre que os “bons costumes” podem esperar — focada em madame Cri-Cri, suas fantasias podem aflorar.
Rayan Monteiro, como Dorothy Dalton, constrói um personagem irreverente, extravagante e cheio de personalidade, explorando com inteligência e liberdade o humor, a caricatura e as contradições do universo de Nelson Rodrigues. Sua presença em cena acrescenta cor, ritmo e uma boa dose de ousadia à farsa, fazendo de Dorothy uma figura que jamais passará despercebida pelo público, garantia de muita excentricidade, inteligencia e riso!
Roberto Reial, como Dr. Lambreta, participa desse desfile de figuras que tentam explicar, solucionar ou controlar o que talvez não tenha solução alguma, a autoridade médica levada ao absurdo. Ele é um profissional que deveria trazer respostas e segurança, mas acaba contribuindo para a confusão, tornando-se uma caricatura da ciência e das instituições que se revestem de autoridade para explicar aquilo que nem sequer compreendem ou se compreendem, enganam os mais incautos.
Rafael Xerez, como Padre, entra também nesse universo de autoridades que Nelson coloca diante do absurdo, O Padre, em mais uma provocação típica, surge como a representação da instituição religiosa também submetida às contradições humanas. Sem perder o tom farsesco, a peça sugere discretamente que nem mesmo aqueles que ocupam posições de autoridade espiritual estão acima das fragilidades e dos paradoxos da condição humana — uma ironia que Nelson constrói sem poupar ninguém.
Casé Pinheiro, como Homem Nu da Cintura para Cima, completa o mosaico de personagens que fazem da peça uma verdadeira celebração da farsa, costurando à peça em vários momentos, tem despertado na platéia, principalmente feminina, algo como "isso contagia", ficou curiosa (o)?
Pardal, interpretado por Paulo César Cândido é o homem que vive próximo do poder, observa, concorda, obedece e, quando tem oportunidade, revela aquilo que realmente pensa.
Uma direção que rege o caos.
Uma farsa como “Viúva, Porém Honesta” exige muito mais do que bons atores.
É preciso ritmo, precisão, entender quando acelerar, quando parar, quando deixar uma reação crescer e quando simplesmente permitir que o absurdo aconteça diante do público.
Esse trabalho tem a assinatura de Hiroldo Serra, que conduz a montagem com uma direção capaz de organizar o caos criado por Nelson Rodrigues sem retirar dele sua irreverência. E esse trabalho foi percebido por quem assistiu.
O dramaturgo e membro da Academia Cearense de Teatro, Humberto Cunha, após assistir ao espetáculo, deixou uma avaliação que sintetiza muito do que a Comédia Cearense procura fazer:
“Você faz um teatro generoso, que dialoga e se comunica com o público, diferente de alguns que fazem um discurso cênico de superioridade.”
E continuou:
“A peça é divertida, a média das interpretações é muito boa, com algumas performances de excelência.”
Humberto também destacou que, quando tudo funciona — inclusive a parte técnica — isso é resultado da condução de quem sabe o que está fazendo:
“Se tudo funciona bem, inclusive a técnica, deve-se à regência de quem sabe o que faz.”
E encerrou com uma frase que recebemos com enorme carinho:
“Parabéns a você e a todos que fazem a Comédia Cearense.”
São palavras que ultrapassam o simples elogio. Elas reconhecem uma característica fundamental do trabalho da companhia: a generosidade do palco. Um teatro que não pretende falar de cima para baixo com o espectador, mas conversar com ele.
O sucesso de uma companhia que não para.
“Viúva, Porém Honesta” também representa um momento especial na trajetória da Comédia Cearense. Com quase 70 anos de história, a companhia montou, em sequência, duas obras de Nelson Rodrigues.
Em 2025, foi a vez de “O Beijo no Asfalto”, também sob direção de Hiroldo Serra. A montagem teve sessões lotadas e recebeu seis indicações ao Prêmio Nacional Cenym de Teatro. Agora, com “Viúva, Porém Honesta”, a companhia retorna ao universo rodrigueano por um caminho completamente diferente: mais farsesco, mais delirante, mais irreverente e assumidamente cômico.
A imprensa cultural também vem destacando essa característica da montagem, ressaltando as interpretações marcantes, o humor, a crítica social e a teatralidade do espetáculo. E a resposta de quem esteve na plateia confirma que a proposta encontrou seu público.
A jornalista Jeritza Gurgel, do Diário do Nordeste, após assistir ao espetáculo, resumiu sua experiência de maneira direta:
“Fui, gostei e recomendo.”
E acrescentou que o espetáculo "provoca pensamento, arranca risos e ainda deixa assunto para a saída."
Agora é a última chance.
Toda temporada tem um momento inevitável.O fim. Neste domingo, 30 de agosto de 2026, às 19h, no Teatro Nadir Papi Saboya, a Comédia Cearense apresenta a última sessão de “Viúva, Porém Honesta”. Depois disso, as luzes se apagam, Os personagens deixam o palco, voltam aos seus bastidores. Ivonete deixa de ser viúva diante dos nossos olhos, o
O Diabo da Fonseca desaparece, e aquela família absurda, aqueles especialistas, aquela imprensa e todos aqueles personagens que nos fizeram rir e pensar deixam de existir — pelo menos até a próxima montagem, será?
Por isso, se você ainda não assistiu, esta é a sua última oportunidade. E se já assistiu, talvez seja justamente a hora de voltar. Porque uma boa comédia pode ser assistida novamente. Uma boa interpretação pode ser descoberta de outra maneira e uma grande obra de Nelson Rodrigues sempre guarda alguma coisa que não percebemos na primeira vez, eu garanto para você que já viu!
DOMINGO É O ÚLTIMO DIA!
“VIÚVA, PORÉM HONESTA” de Nelson Rodrigues
Grupo: Comédia Cearense
Direção: Hiroldo Serra
Coreografia: Raian Monteiro
Figurino: Ruth Aragão
Fotografia: Isabelle Montenegro (aguardem galeria completa abaixo)
Make: Luana Kaitlin
Camareira/Contra Regra: Cintia Marilac
Luz e som: Taynara Tavares
📅 30 de agosto de 2026 — domingo⏰ 19h📍
Teatro Nadir Papi Saboya — Colégio Farias Brito
Rua 8 de Setembro, 1331 — Varjota — Fortaleza/CE
🎟️ Inteira: R$ 60🎟️ Meia-entrada: R$ 30
🔞 Classificação: 14 anos
🚗 Estacionamento gratuito, sujeito à lotação.
É o último encontro com Ivonete, Dr. J.B., Pardal, Dorothy Dalton, Diabo da Fonseca, Madame Cri-Cri, Dr. Lupicínio, Dra. Sanatória Botelho, Dr. Lambreta, Tia Assembleia, Padre e o Homem Nu da Cintura para Cima, essa galeria de figuras inesquecíveis criadas por Nelson Rodrigues. A Comédia Cearense espera por você.
Venha rir, venha se provocar, venha prestigiar o teatro cearense. Venha se despedir da nossa “Viúva, Porém Honesta”.
Da Redação
Blog da Comédia Cearense,
Paulo César Cândido
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